“Somos sur”: o rap político de Ana Tijoux
Era uma quinta-feira de setembro de 2016. Na grama do Centro de Comunicação e Expressão de Florianópolis, estudantes preparavam as máscaras, vinagres e bandeiras para sair às ruas na manifestação contrária ao impeachment da presidenta do Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff. Ao fundo, como música de concentração, soava nos alto-falantes um rap bem rimado, de swing latino contagiante: era a cantora de chilena Ana Tijoux, com a música “Somos Sur”. Apoiados em um mau espanhol, alguns brasileiros tentavam acompanhar os rápidos versos da cantora que, com mérito, se tornou nos últimos anos uma das rappers chilenas mais conhecidas internacionalmente.
“Tu nos dices que debemos sentarnos / Pero las ideas solo pueden levantarnos” – trecho da música “Somos Sur” de Ana Tijoux. Crédito: La Tercera
Dona de um rap político, Ana Tijoux é uma das rappers latino-americanas que não cantam a exaltação do que é material e luxuoso, mas trazem nas palavras o fortalecimento da cultura periférica do sul do mundo. Sua música mais famosa no continente é “Somos sur”, uma das faixas do álbum “Vengo”, lançado em meados de 2014, mas que ainda é hit nas festas universitárias do país verde-amarelo. Isso provavelmente ocorre porque a música se faz um símbolo de resistência de “todos los calados / todos los sometidos / todos los invisibles”. E resistir à retirada de direitos, embalados pela voz da cantora chilena, é algo que os brasileiros precisam.
“Tenemos vida y fuego, fuego nuestras manos, fuego nuestros ojos /
Tenemos tanta vida, y hasta fuerza color rojo /
La niña María no quiere tu castigo, se va a liberar con el suelo Palestino /
Somos Africanos, Latinoamericanos, somos este sur y juntamos nuestras manos”.
Anamaría Tijoux Merino, ou simplesmente “Ana Tijoux”, é filha de dois chilenos exilados pelo golpe de estado de Pinochet no Chile, deflagrado em 1973. Nascida no exílio, na cidade francesa Lille, Ana foi morar no país sul-americano em 1993, quando havia acabado a ditadura. Apesar dos anos de França, a rapper se considera, de sangue e coração, chilena. E seu rosto com traços indígenas não negam a grande presença americana no sangue de Tijoux. Feminista e militante por causas sociais e culturais dos países do terceiro mundo, suas faixas mais conhecidas são denúncias e desabafos, com destaque para a canção “Antipatriarca”, que faz parte do hino das mulheres que lutam contra a violência de gênero.
“Antipatriarca” é a “Maria da Vila Matilde” escrita em terras chilenas. Também do álbum “Vengo”, com esta faixa a cantora mantém a boa letra, o bom ritmo e um clipe impecável. No cenário latinoamericano, “Antipatriarca” coloca Tijoux junto a Elza Soares (Brasil), Natalia Laforcade (México), Rebeca Lane (Guatemala), Danay Suárez (Cuba), e muitas outras cantoras latinas que crescem ao expor a luta feminina em suas letras.
O Brasil só tem a ganhar se nossos jovens continuarem acompanhados pela rapper chilena. E para ir além das faixas mais conhecidas em nosso país, fecho esta nota com a recomendação da canção “Shock”, que tem como temática as manifestações de 2011 pela gratuidade e qualidade da educação no Chile. O clipe de “Shock”, aberto para visualização no Youtube, é quase um documentário dos acontecimentos no país das cordilheiras. Menos conhecida e mais antiga que “Somos sur”, a letra da música acaba constituindo também um paralelo com a indignação dos estudantes brasileiros de hoje, que veem a situação da educação pública piorar a cada ano, mas que acompanham a resistência com o fortalecimento da cultura latino-americana.
Por Camila Ignacio.
___________________________________________________________________
Artista: Ana Tijoux
Música: Somos Sur
Álbum: Vengo
Género: Rap
Valor: US$9.99
Link de compra: https://www.amazon.com/Vengo-Ana-Tijoux/dp/B00HXEWFAY
|

Comentarios
Publicar un comentario